O presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), Vitor de Angelo - Foto: Carlos Alberto Silva/A Gazeta
O presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), Vitor de Angelo - Foto: Carlos Alberto Silva/A Gazeta

“Cenário de volta às aulas em 2021 é desafiador”, diz presidente do Consed

Em entrevista ao portal Brasil61.com o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), Vitor de Angelo, disse que cenário educacional em 2021 ainda enfrenta dificuldades, mas gestores locais estão dispostos a mudar esse quadro


Com o retorno das aulas presenciais após um longo período de ensino remoto, muitos questionamentos ainda perduram sobre como oferecer uma educação de qualidade diante dos desafios que a pandemia da Covid-19 trouxe. Para falar sobre projeções, expectativas e dificuldades do ensino estadual e municipal, o Brasil 61 Entrevista conversou com o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), Vitor de Angelo.

Na perspectiva do presidente do Consed, as dificuldades do ano passado ainda persistem em 2021. A diferença é que existe um melhor entendimento sobre o que é o coronavírus e grande disposição dos gestores locais para resolver essas questões.

“Noto que há um interesse muito grande dos gestores em apoiar o secretário de educação local. Agora, lógico, entre a disposição e a concretização disso há um caminho que nem sempre depende da vontade de alguém apoiar e valorizar o trabalho, mas sim, em muitos casos, de condições financeiras, técnicas e políticas para tomar determinadas decisões que podem ser difíceis em um momento tão polarizado como esse”, salienta Vitor de Angelo.

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Com relação ao desenvolvimento dos alunos, Vitor enxerga que existe um déficit educacional, mas que não é possível afirmar com precisão até que estudos do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) sejam publicados. 

Internet e educação

Outro assunto muito discutido enquanto os alunos tinham aulas remotas era a falta de acesso à internet para dar continuidade aos estudos. Agora, com o retorno das atividades presenciais, Vitor destaca que o objetivo atual dos gestores é implementar internet de qualidade e com maior abrangência dentro das escolas, mas é necessário levar em consideração condições geográficas e de infraestrutura.

“É preciso ampliar o horizonte para pensar também o papel do governo federal e do Ministério das Comunicações. Estamos com o edital do 5G acontecendo e esse é um momento importantíssimo, porque significa dar um passo em termos de tecnologia que pode ser decisivo para expandir um acesso de qualidade para todas as escolas públicas, independente se são escolas urbanas ou escolas rurais.”

O presidente do Consed pontua ainda que para superar os desafios estruturais que envolvem a educação no Brasil e construir um ensino de qualidade é necessária uma grande mobilização de atores políticos e da sociedade civil organizada. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

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LOC.: Olá, sejam bem vindos ao Brasil 61 Entrevista. Eu sou Laísa Lopes e hoje vamos receber o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), Vitor de Angelo, para falar sobre a volta às aulas da Rede Estadual e Municipal de ensino. Presidente, seja bem-vindo. 

TEC./SONORA: Vitor de Angelo, presidente do Consed

“Obrigado! Eu que agradeço a oportunidade de estar com vocês.”

LOC.: O senhor tomou posse há sete meses. Pelas conversas que vem tendo com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e os secretários estaduais, os desafios da educação enfrentados no ano passado persistem, pioraram ou são outros?

TEC./SONORA: Vitor de Angelo, presidente do Consed

“Acho que eles persistem, não sei se pioraram, tenho até a impressão de que são semelhantes em dificuldade, não nos desafios em si, ou talvez até tenham melhorado no grau de dificuldade, haja vista que a gente conhece um pouco melhor agora a pandemia do que conhecíamos no ano passado quando os gestores que estavam à frente das pastas, seja no município ou nos estados, tiveram que enfrentar esse desafio que foi responder a pandemia. Mas de qualquer maneira é um cenário desafiador ainda e como muitos gestores nos municípios chegaram agora e alguns também nos estados acabaram mudando ao longo desses meses de 2021, então nós temos desafios novos em um patamar ainda de dificuldade grande com gestores que em muitos casos assumiram a pouco tempo.”

LOC.: O senhor falou que alguns desafios são novos e outros persistem, mas existe interesse dos gestores em resolver as questões falhas?

TEC./SONORA: Vitor de Angelo, presidente do Consed

“Até onde consigo enxergar das experiências que eu tenho, das conversas que eu estabeleço com várias pessoas, noto que há um interesse muito grande dos outros gestores, sejam eles colegas do secretariado, em apoiar o secretário de educação, sejam prefeitos e governadores, em também garantir condições para que o trabalho do gestor da pasta da educação tenha sucesso, especialmente neste momento, dadas as consequências que a pandemia trouxe. Agora, lógico, entre a disposição e a concretização disso há um caminho, né? Que depende, nem sempre, da vontade de alguém apoiar e valorizar o trabalho e sim, em muitos casos, de condições financeiras, técnicas, políticas, de acúmulo mesmo de força política para tomar determinadas decisões que podem ser difíceis em um momento tão polarizado como esse.”

LOC.: Diante das conversas que o senhor tem com alguns gestores, como vocês têm observado o desenvolvimento dos alunos? É possível mensurar se eles estão aprendendo de forma adequada ou se existe algum déficit na educação deles? 

TEC./SONORA: Vitor de Angelo, presidente do Consed

“Existe um grande déficit. Existe uma perda muito grande cuja extensão exata vai ser publicizada em breve, por ocasião do Saeb [Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica] e também das avaliações externas que muitos estados fazem com participação dos municípios. Isso porque, de alguma maneira, durante a pandemia a gente viveu um certo apagão de indicadores. Não foram realizadas avaliações externas em lugares que faziam essas avaliações no ano passado, o ano de 2020 não foi um ano de realização do SAEB. Estamos praticamente há dois anos sem dados fidedignos sobre como anda a aprendizagem dos nossos estudantes no momento em que as condições de ensinar e de aprender, por pressuposto, mudaram radicalmente.”

LOC.: Falando um pouco sobre tecnologia, sabemos que a falta dela atrapalha bastante o ensino e foi um empecilho durante o período em que os alunos estiveram em casa. Existe projeção dos gestores colocarem internet de qualidade com uma abrangência maior dentro das escolas estaduais e municipais? 

TEC./SONORA: Vitor de Angelo, presidente do Consed

“Isso tem sido o objetivo de todos os gestores. Inclusive aqui no Espírito Santo, meu estado, vejo muito esse movimento na nossa rede desde 2019, temos feito um forte movimento nesse sentido, mas também nos municípios, inclusive com o apoio do governo Estadual e acredito que pelas conversas que eu tenho tido no âmbito do Consed, também com a Undime, que essa é uma realidade no Brasil em termos de objetivo, mas de novo, em muitos casos é preciso lembrar que o Brasil é um país enorme, heterogêneo em condições técnicas, financeiras, políticas, que aqui não pesa tanto esse assunto, mas acho que nesse aspecto vale adicionar uma outra questão que é a condição geográfica e de infraestrutura, porque nós temos no nível nacional muitas escolas no campo, muitas escolas em lugares de difícil acesso, muitas escolas em lugares em que a qualidade da internet é ruim e não é uma questão de um governo Estadual ou Municipal fazer a internet chegar lá, não há infraestrutura para uma internet de qualidade chegar naquela localidade.”

LOC.: Para finalizarmos você gostaria de deixar algum recado para os nossos ouvintes, leitores, alunos e pais?

TEC./SONORA: Vitor de Angelo, presidente do Consed

“Vamos precisar fazer uma grande mobilização pela educação é importante frisarmos. Passamos 2020, 2021, tratamos aqui desse biênio, como foi difícil! As perdas, as incertezas ainda em termos de resultados, pelas avaliações que ainda se realizarão e cujos resultados serão divulgados mais adiante, mas que ninguém tenha dúvidas: a educação ela é fundamental para superar as adversidades que o Brasil passa, sobretudo na desigualdade social, no desenvolvimento econômico, isso é ainda mais difícil em virtude dos impactos que a pandemia trouxe para a educação e a educação pública sobretudo e para caminharmos na direção correta, aí penso eu, a partir de 2022 só uma grande mobilização que envolva diversos atores da política, de fora da política, de Brasília, dos estados, dos municípios, sociedade civil organizada para buscarmos construir uma educação de qualidade como vínhamos tentando e conseguindo fazer ainda aqui num ritmo lento, mas pra fazermos isso, porque do contrário, dificilmente conseguiremos superar desafios históricos estruturais que o Brasil tem. No curto, no médio e para o longo prazo também.”

LOC.: Chegamos ao final do nosso bate-papo. Vitor de Angelo, muito obrigada pela participação aqui no Brasil 61 Entrevista.

TEC./SONORA: Vitor de Angelo, presidente do Consed

“Eu que agradeço a oportunidade, um grande abraço a todos.”

LOC.: E você que está nos ouvindo pode conferir essa entrevista completa nas nossas redes sociais e no canal do brasil61.com, no Youtube. Até mais!

Reportagem, Laísa Lopes